A multiartista, que vive Luana Shine na novela "Terra e Paixão", revela endereços de boemia do bairro onde não há espaço para preconceito
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Quem vê Valéria Barcellos brilhando como Luana Shine, na novela Terra e Paixão, da Globo, não faz ideia da dura caminhada da multiartista, grande parte dela em Porto Alegre. Quando chegou à capital gaúcha vinda de Santo Ângelo, no início dos anos 2000, ela diz que se sentiu como se estivesse sendo adotada.
“A cidade pairava no meu imaginário de maneira muito longínqua, como se fosse um reino distante. Essa era a sensação que eu tinha de Porto Alegre quando criança. Peguei dinheiro emprestado para me mudar para cá. Mas, quando cheguei, pensei: o que eu vou fazer agora?”

O sonho de viver na capital gaúcha e enfrentar os desafios da carreira artística levaram Valéria para a Cidade Baixa, bairro em que, além de trabalhar, morava até precisar viajar para as gravações. Foi paixão à primeira vista: “Aqui tem algo que eu não sei explicar o que é... A gente fica encantada, muito embebida dos lugares, dos bares, das esquinas. Logo que me mudei, passava em frente aos bares e pensava: ‘Será que um dia eu vou conseguir estar nesse lugar? Cantar no Opinião?’.”
Depois de 17 anos vivendo em Porto Alegre, Valéria pode dizer que subiu em praticamente todos os palcos da cidade – em especial nos da Cidade Baixa, bairro do seu coração. “É muito bom passar pelos lugares e as pessoas me convidarem pra cantar ou lembrarem de um show que fiz ali. Isso é muito incrível pra mim. Eu acho fantástico elas saírem de suas casas para ver a Valéria hoje.”

Há diversos projetos de Valéria espalhados pela cidade e pelas telas. Mas, quando está em Porto Alegre, há um local que, com certeza, você vai encontrá-la: o Venezianos Pub Café, carinhosamente chamado de Venê por seus frequentadores, localizado na esquina da Travessa dos Venezianos com a Rua Joaquim Nabuco.
“Lembro-me do primeiro dia que cantei aqui, lembro-me até da roupa que estava usando e como me senti à vontade com ela. Até os 25 anos, ‘introspectei’ a Valéria que sempre existiu. Não existe um momento em que a gente ‘vira’. Ninguém vira! Não é como aquela boneca que tinha nos anos 1980: um lado era menina e no outro, vaso de flor. Mas é que, a partir desse momento, eu senti a liberdade de ser a Valéria.”
A multiartista se apresenta no Venê desde que chegou à cidade. O local se confunde com sua história, já que cantou ali pela primeira vez dois meses depois de se mudar para Porto Alegre: “Um amigo me emprestou R$ 3 porque eu não tinha dinheiro para o ingresso. A antiga dona me viu cantando e me convidou para vir na semana seguinte. Eu não podia porque não tinha dinheiro, e juntei R$ 1 por semana. Três semanas depois, eu vim e voltei para cantar no videokê. Mais uma semana e eu estava trabalhando no Venê. Então, esse espaço tem a junção de vida pessoal com o trabalho e, ao mesmo tempo, a construção de uma história. O Venezianos me acompanha em todos os lugares que vou Brasil afora. Sempre tem alguém que diz que já me viu cantar aqui. E é maravilhoso ter uma referência como essa”.

No início da carreira, quando era conhecida como Valéria Houston, a intérprete provocava a curiosidade do público, fazendo com que as pessoas fossem ao espaço só para ouvi-la: “Eu cantava em um timbre muito agudo, como a Whitney Houston, e as pessoas vinham para ver quem era essa pessoa, uma travesti cantando com uma voz dessas. Elas chegavam e não sabiam nem como perguntar se eu ia cantar naquele dia. Hoje perguntam: ‘A Valéria tá aí?’”.
Mas a voz de Valéria não ficou somente entre as paredes do Venê. Pouco depois, ela já estava se apresentando no circuito de casas LGBTQIA+ de Porto Alegre, em lugares como Vitraux, clube bem tradicional, com mais de 25 anos, Refúgio’s, que não existe mais, e no célebre inferninho Indiscretu’s, no Quarto Distrito. “Tinha medo de não conseguir aceitação, num ambiente que poderia concorrer com as transformistas. Será que elas vão entender que eu canto e elas dublam?”
Felizmente, elas entenderam.
Na Cidade Baixa, Valéria acredita que se apresentou em praticamente todas as casas noturnas nestas quase duas décadas de trabalho. “Na Rua João Alfredo, cantei no Matita Perê, no Negra Frida, no Parafernália… Cantei também no Prefácio, Entreato e Capadócia. Mas tem um bar, o Parangolé, que eu adoro. Lembro-me de sonhar em tocar ali, porque havia músicos muito bons, de alto nível artístico”, revela.
Uma das lembranças divertidas desses anos todos tem a ver com um desafio. “Foi em um bar na Rua da República que nem existe mais. Entrei e pedi para me apresentar. Disse: ‘Vou cantar uma música. Se as pessoas não gostarem, eu pago a comanda de todo mundo’. E posso garantir que eu não paguei a comanda de ninguém. Inclusive fui convidada para me apresentar nesse bar”, diverte-se.
Na Cidade Baixa, a cantora frequenta lugares que não são necessariamente LGBTQIA+, mas que têm ambiente que respeita todo mundo. Um deles – e que ela adora – é o Porto Carioca, onde Valéria se sente segura como pessoa trans, mesmo não sendo um bar voltado a esse público.
“Tem sido muito legal esse entendimento das pessoas trans, enquanto cidadãs que pagam, consomem, vivem a cidade. É louco ter de pensar nisso, mas é bom poder identificar espaços que acolhem.”
Outro local especial na memória de Valéria é o Bar Opinião. “Lá eu fiz logo um show solo e foi muito emocionante. Um amigo produzia uma festa na casa e eu comentei: ‘Nossa, meu sonho é cantar ali’. Eu nunca tinha ido ao Opinião, e a primeira vez que entrei foi para cantar. Pensei: agora a Cidade Baixa é minha.”

Crédito de imagens: Retrato: Rodrigo Bragaglia | Feed: Valeria Barcellos,Sillas Lima & Luciane Valente | Galeria: Douglas Barcelos, Rodrigo Bragaglia & Saulo Costa