Conheça algumas instituições que valorizam o trabalho artístico das mulheres
Não se pode compreender a criação artística separada da trama urbana composta pelas suas histórias e transformações, sejam sociais, políticas, sejam culturais. Esses elementos estão impregnados na produção de muitos artistas que utilizam as mais diversas linguagens para comunicar suas reflexões e propor o pensar.
Foi dessa maneira que a arte contemporânea constituiu nova mentalidade, novo jeito de fazer artístico, priorizando a ideia e a atitude, libertando o artista de conceitos preestabelecidos. Embora não haja um período inicial definido, pode-se dizer que esse estilo surgiu ainda na década de 1950, no pós-guerra – fase em que os artistas passaram a buscar estímulo e reflexões sobre o mundo e sobre a própria arte. Afinal, qual é o seu papel?
No Brasil, muitos são os artistas que fomentam a arte contemporânea e que deram o próprio tom ao movimento iniciado na Europa e nos Estados Unidos. Em Porto Alegre, o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul possui amplo acervo onde é possível conhecer a ousadia da produção artística ao longo do tempo.
Recentemente, o Museu criou o Programa Acervo em Foco para dar visibilidade aos artistas que compõem sua coleção permanente. “Nós criamos uma série de ações para que o público tenha contato mais direto com essas produções”, explica a historiadora da arte e coordenadora do Setor de Acervo e Documentação do Museu, Izis Abreu. A ideia, então, foi levar essas obras para além do MACRS.

O que é ser mulher? Qual a sua função em uma sociedade? Os atravessamentos cotidianos, cicatrizes e sensações fazem parte da vida e da obra da paranaense Lídia Lisbôa. Artista visual e de performance, ela convida o público a refletir sobre a construção histórica e social da existência feminina. A obra “Tetas que deram de mamar ao mundo”, de 2019, é parte do acervo do MACRS e está em exposição no térreo da Casa de Cultura Mário Quintana. Trata-se de uma imensa escultura em formato de mama feita de crochê de pedaços de tecidos. “Para mim, ela representa o papel da mulher que, por muito tempo, teve seu corpo regulamentado e restrito à maternidade”, reflete Izis. Formada em gravura em Metal pelo Museu Lasar Segall, escultura contemporânea e cerâmica pelo Museu Brasileiro de Escultura e Liceu de Artes e Ofícios, Lídia trabalha com diversos materiais e técnicas além da arte têxtil, como crochê, desenho, performance e esculturas em cerâmica, argila, porcelana e botões.
Também em exibição na CCMQ, está uma das obras de Regina Silveira, doada para a casa pela artista. “Auditorium” faz parte da série que ela produziu com objetos de parede ou instalações durante os anos 1990. Com pensamento filosófico e político, a artista subverte as noções de perspectiva ao distorcer móveis domésticos e de escritório. O que inicialmente parece banal, provoca o espectador a rever as coisas dadas como certas. Artista visual multimídia, gravadora, pintora e professora, Regina formou-se em pintura pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e lá foi aluna dos pintores Aldo Locatelli e Ado Malagoli. Também teve aulas de pintura com Iberê Camargo. Com diferentes linguagens, sua obra explora temas que passam pela composição da imagem, pela reinvenção, pelo poder e pela política.

A arte brasileira sempre teve grandes nomes femininos, e a gaúcha Vera Chaves Barcellos está entre eles. Seus trabalhos exploram o mundo das ideias e das possibilidades, e estão longe de ser “simples” objetos colecionáveis. Para homenageá-la, a Fundação Iberê Camargo espalhou parte de suas obras em oito salas do Museu. Chamada “O estranho desaparecimento de Vera Chaves Barcellos”, a exposição, de curadoria de Raphael Fonseca, oferece ao público o conjunto de trabalhos criados desde a década de 1960 até os mais recentes, alguns feitos especialmente para a mostra. Entre eles, está a série fotográfica “Epidermic scapes”, uma das favoritas de Izis. Foi essa obra que abriu os olhos da estudante e a fez escolher o campo da arte como profissão. “O que eu posso dizer é que vale a pena olhar para essas mulheres inspiradoras”, afirma.
Hoje, aos 85 anos, Vera mantém sua produção ativa por meio de gravuras, fotografias, vídeos e instalações, sempre focada no experimental da imagem, explorando ficção e realidade. Desde os anos 1970, ela exerce importante papel no cenário nacional como artista e também como fomentadora da arte. Em 2003, criou a Fundação que leva seu nome para divulgar também o trabalho de outros artistas brasileiros e estrangeiros. “São mais de quatro mil itens que permitem o contato com as mais variadas criações”, recomenda a historiadora. Assim como a Casa de Cultura Mário Quintana, a Fundação Vera Chaves Barcellos tem entrada gratuita, mas requer agendamento prévio. Já a Fundação Iberê Camargo oferece entrada gratuita às quintas-feiras. De sexta a domingo, é preciso adquirir os ingressos no local.
Créditos de imagem:Destaque: Divulgação_Lídia Lisboa | Feed: Divulgação_Lídia Lisboa & Divulgação_Vera Chaves Barcellos | Galeria: Divulgação_Regina Silveira