Rodas de samba ganham a capital gaúcha

O samba não está mais restrito aos quintais e bares tradicionais: ele se espalhou por toda a cidade


Se você quiser, vai achar onde sambar em Porto Alegre a semana inteira

Última atualização em 10 de maio de 2023
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Nos últimos anos, Porto Alegre tem visto o crescimento de projetos locais que abrem suas portas para o mais popular ritmo brasileiro viver sua mais deliciosa manifestação: a roda de samba

Essa invenção carioca, nascida na casa de Tia Ciata, no início do século 20, não conta com muitas regras: basta um grupo de pessoas e a vontade de sambar. Como uma jam session no jazz, é um espaço de improvisação, onde os instrumentistas têm liberdade de tocar e criar, assim como os compositores aproveitam para apresentar suas canções. Pode contar com um pandeiro e um cavaquinho, ou trazer uma banda com muitos instrumentos, aceitar pedidos de canções ou seguir estritamente o desejo dos músicos. O fato é que ninguém passa ileso porque a alegria é contagiante.

Samba na rua para quem quiser chegar

Na capital gaúcha, as rodas de samba pularam dos quintais e dos bares já tradicionais, e foram ocupando diversos espaços pela cidade, da Zona Sul ao Quarto Distrito, muitas ganhando as ruas. 

Um exemplo é o Agulha, no bairro São Geraldo, que promove rodas na rua, em frente ao bar, comandadas pelo Instituto Brasilidades e pela Central do Samba. Os eventos reúnem aos domingos à tarde quase 1.000 pessoas a cada edição, sem cobrança de ingresso, num clima superfamiliar. Para quem costuma frequentar o bar, a surpresa é ver um público bem diferente do que acompanha a programação da casa, muito mais diverso, com pessoas de várias idades – e que estariam em locais completamente diferentes – unidas pela música. 

É também o caso das rodas de samba que ocorrem no Butcher Pizza Bar, na Travessa dos Venezianos, na Cidade Baixa. O restaurante, administrado por Viviane Ruskowski e Bianca Bolzani, já tinha a cultura de ter algumas noites com música ao vivo, mas em um formato mais enxuto. “Desde que assumimos o ponto, incluímos alguns pocket shows para os clientes curtirem sentados, com um clima mais intimista”. Porém, em novembro de 2021, ainda por conta das restrições em relação à Covid-19, as sócias aproveitaram a rua para oferecer uma agenda musical mais variada e convidaram o Samba de Rolê. O formato funcionou tão bem que fixaram uma data por mês com o grupo.

Viviane ressalta que a Travessa dos Venezianos sempre foi palco de rodas de samba. “Nós, assim como outros estabelecimentos vizinhos, resgatamos essa cultura que movimenta a cidade, traz mais segurança para quem frequenta os bares e ajuda – e muito! – na saúde financeira dos negócios”, afirma. Segundo a empresária, com a pandemia o público e seu comportamento de consumo mudaram, e a possibilidade de oferecer uma área externa tem auxiliado muito. Em dias de roda de samba, o faturamento da casa aumenta em torno de 47% em comparação com dias sem programação musical. 

Cada edição costuma mobilizar cerca de 500 pessoas que acompanham a roda na rua, em frente ao empreendimento. Recentemente, a programação musical ampliou e é possível sambar pelo menos duas vezes por semana no bar. Para este ano, as proprietárias afirmam que devem fixar a agenda aos sábados com eventos durante o dia.

Sambando de segunda a segunda

“Coles em mim que tu sambas de segunda a segunda”, diz a escritora Clara Corleone cada vez que alguém pergunta onde é a roda de samba do momento. A autora de Porque era ela, porque era eu, lançado em 2021, pela LP&M Editores, transformou o Boteko do Caninha em personagem de seu romance de estreia. “Eu nasci em roda de samba. Enquanto minha mãe me ensinou a ler e escrever, meu pai me ensinou a amar o samba e a boemia. Não consigo imaginar minha vida sem samba”, confessa.

Para a artista, o grande atrativo é a simplicidade do evento. “Com uma caixinha de fósforo se faz uma roda de samba. Das nossas heranças culturais, é a que acho mais bacana. Não precisa estar bem-vestido, não tem de ser em um lugar específico. É só ter um grupo de pessoas e vontade, e está feito”, afirma Clara. 

Por frequentar as rodas desde criança e estar sempre atenta às novidades da cena, Clara sempre é consultada por seus leitores e amigos sobre onde curtir o melhor samba em Porto Alegre. Ela percebe o considerável crescimento de rodas e de públicos diversos após a pandemia, em especial por pessoas que não costumavam participar anos atrás. “Eu enxergo o embranquecimento do público na cidade, de muita gente que está iniciando nesse universo. É legal ver hoje no samba uma turma que eu conhecia de festas no Ocidente, onde trabalhava como hostess. Acho positivo esse aumento e essa ampliação do público, pois isso faz com que mais espaços abram suas portas para promover mais rodas e crescem as oportunidades de trabalhos para os músicos. Toda a cadeia ganha, e o melhor: dá pra sambar a semana inteira”.

A etiqueta da roda de samba

Para quem está iniciando no universo das rodas de samba, a escritora dá algumas dicas e explica que, apesar de ser um ambiente muito informal, é muito importante saber o que devemos ou não fazer. Ela lembra que quem está chegando deve respeitar as pessoas que ali já estavam antes, pois a roda é feita por todos que participam, e não só os músicos. “Se você quer ficar na frente da banda, esteja animado! Esse não é lugar para mexer no celular, ficar de cara emburrada ou conversando sem curtir a música. A frente do samba é da galera que puxa. A roda é algo feito em conjunto, quem toca e quem acompanha. Não é um show, por isso que é tão genial: ela precisa que todo mundo participe para realmente acontecer”, declara. 

Outro ponto importante para a turma que curte o gargarejo é auxiliar os músicos. “Pague uma cerveja, ajude a servir uma água, faça uma manutenção da limpeza da mesa. Quem está junto da banda tem de colaborar”.

Na hora de dançar, Clara também ressalta a importância de respeitar o espaço de quem está ao lado. “Tem gente que vai pra frente da roda para competir quem samba mais, não para se divertir. Não empurre as pessoas, não dê cotovelada. Vamos ser maravilhosas juntas, deixe a colega brilhar também”, brinca.

Três rodas de samba que você precisa conhecer

Já que, segundo a escritora, é possível sambar a semana inteira, ela indica três sambas que você precisa conhecer pelo Portinho, começando pelo seu preferido, no Armazém do Campo, na Cidade Baixa. “O samba é comandado por Thiago Ribeiro. É o melhor que temos no momento, costuma ocorrer às quintas ou sextas-feiras”. 

Há também grupos itinerantes, como o Volto pra Te Ver, comandado por Mauro Moura. “O repertório é excelente! Mauro é muito carismático e é sempre legal acompanhar a turma”. Outro destaque escolhido por Clara é o Samba Delas, formado apenas por mulheres. “Elas fazem uma mistura muito interessante de clássicos do samba e do pagode, e também de versões de música sertaneja em ritmo de samba. É muito divertido.”

Onde acompanhar a programação

Siga nas redes sociais esses três locais onde rola samba:

Crédito de imagens - Desktop e mobile: Instagram Roda de Samba do Ziriguidum | Feed: Instagram_voltopratever e Instagram_gruposambadelas