Slow fashion chega à cidade

Porto Alegre já tem marcas sustentáveis que produzem peças únicas, cheias de personalidade e, claro, sem desperdícios


Conscientização e valorização do mercado local, uso de materiais ecológicos ou recicláveis são características da moda sustentável

Última atualização em 29 de abril de 2023
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Cultura
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A capital gaúcha começa a ganhar diversos criadores de moda alinhados ao conceito de slow fashion, com produções para todos os estilos. “Há muitas marcas trabalhando com zero desperdício de tecidos e peças superatemporais, que fazem total sentido para quem busca o consumo mais consciente”, conta o artista Régis Duarte.

Além da própria grife, ele indica outras três que também são produzidas em Porto Alegre: Contextura, Dreher 1989 e Mateus Johan. 

As designers Evelise e Anne Anicet, mãe e filha, comandam a Contextura, que existe há mais de 10 anos trabalhando com arte e moda por meio da cultura da sustentabilidade. “Elas utilizam sobras da indústria têxtil e matérias-primas certificadas, além de um trabalho visual bem forte, uma arte vestível”, explica Régis.

A Dreher 1989 é uma marca de raw denim (jeans que não foi submetido a nenhum processo de lavagem) e workwear (moda masculina inspirada em roupas tradicionais de trabalho) nascida em Porto Alegre em 2017. “As peças trazem design bem clássico e superinteressante, além de trabalhar sob medida”, conta Régis. As roupas são costuradas em antigas máquinas industriais que prezam pela durabilidade e valorizam os modelos atemporais.

Já o alfaiate Mateus Johan é conhecido por suas camisas e trajes sob medida. “Nada mais elegante que uma peça de roupa feita pro nosso corpo e que vai nos acompanhar por muitos anos. As criações da Mateus são elegantes e clássicas, daquelas feitas para a vida toda”, afirma.

Moda sem desperdício

Em Porto Alegre, Régis desenvolve roupas com foco na moda lenta há mais de 20 anos, muito tempo antes de o termo existir. A marca trabalha com coleções com tiragens limitadas de peças únicas, quase todas com aplicações de detalhes feitos à mão. “Somos a mesma equipe de cinco pessoas há mais de 12 anos”, revela o artista. “Acho superimportante porque todos colaboram não só na produção das peças, mas também no processo criativo. Todos conhecem a minha linguagem e trabalham em parceria, em especial a Luci Dalmaso, que está comigo há mais tempo”. 

Para o criador, a produção de peças que respeita o tempo, “sem pressão na cadeia produtiva”, gera impacto no custo, porém viabiliza uma realidade mais justa para todos os envolvidos. “Eu acredito muito na premissa de que é possível progredir sem crescer. A gente não precisa expandir muito, ter filiais, produzir milhares de peças por ano. É possível manter um negócio pequeno, enxuto e estável. E essa sempre foi a nossa proposta.”

Roupas como suporte para arte

Régis trabalha com coleções compostas por cerca de 40 peças, desenvolvidas e lançadas a cada três meses. Muitas delas surgem em parcerias com trabalhos de artistas visuais, em que o estilista se apropria de fotos, pinturas e outras criações para transformar obras de arte em estampas. 

A primeira coleção com estampas de artistas surgiu em 2012, em parceria com o pintor Brito Velho. A mais recente, lançada em março de 2023, lança o nome do arquiteto Julio Collares na pintura. “Collares é um nome conhecido na arquitetura. Ele possui um lindo trabalho na pintura, com pegada modernista, mas que estava guardado há muitos anos.” As criações do artista se transformaram em estamparia de kaftans, blusas e camisetas, à venda na Galeria Mascate e pelo site da marca. “A ideia de usar obras de artistas foi enxergar meu trabalho como uma janela para apresentar criadores emergentes e renomados para o suporte da roupa”, diz Régis.  

No quesito feito à mão, as peças criadas por ele costumam vir com aplicações em crochê, todas feitas por sua mãe, Rejane Barbosa. É uma característica que vem desde o início de sua carreira, quando, na década de 1990, morava em Nova York e levava do Brasil camisetas com aplicações em crochê que vendia em pequenas lojas no Soho, com foco em produções autorais. “O trabalho manual, a roupa feita com minúcias de detalhes, isso está comigo desde sempre. Minha mãe tinha um ateliê em casa, em Uruguaiana, no interior do RS. Eram criações de alta costura – ela desenhava, costurava e depois bordava, tudo sozinha. Eu me criei nesse ambiente. Fiquei muito interessado nos bordados e acabei levando isso pra roupa”, revela.

O que é slow fashion?

A humanização por trás da slow fashion vai além de reconhecer o trabalho de indivíduos em uma cadeia produtiva. Ela está ligada diretamente ao futuro do meio ambiente, já que o setor é o segundo mais poluente do mundo – em primeiro está a indústria petrolífera. Segundo levantamento da Global Fashion Agenda, mais de 92 milhões de toneladas de resíduos foram descartados nos últimos anos e a projeção é que nos próximos oito haja o aumento de 60%. 

De acordo com a Fundação Ellen McArthur, o descarte de roupas é tão alto que, em um dia, as roupas descartadas no lixo em todo o mundo lotariam um prédio de 100 andares. Para dar ideia do quanto o problema da indústria da moda é grave, são utilizados 2.700 litros de água, equivalente ao consumo de uma pessoa por mais de 2 anos, para produzir apenas uma camiseta de algodão, 

Inspirado no termo slow food, que na década de 1990 se popularizou no universo da gastronomia, a slow fashion tem como objetivo minimizar os prejuízos gerados pela indústria de fast fashion, buscando o consumo consciente e sustentável, fomentando a prática da economia local e circular. Com sua popularização, os adeptos do slow fashion ressaltam a conscientização e a valorização do mercado local, o uso de materiais ecológicos ou recicláveis e, acima de tudo, um sistema de produção transparente, que compartilha com o consumidor todo o processo de produção de determinada roupa. Com isso, cada etapa da criação de uma peça, desde os insumos até à venda, se torna protagonista na hora de comprar um novo look, já que a durabilidade das roupas também é algo a se levar em conta. 

Onde comprar

Para conhecer a produção dessas marcas slow fashion, basta entrar no Instagram delas: Régis Duarte @regisduarteportoalegre Contextura @ateliercontextura Dreher 1989 @dreher1989 Mateus Johan @matheusjohan

Crédito de imagens - Destaque: Instagram_Dreher 1989 | Feed: Instagram_Matheus Johan & Instagram_Dreher 1989 | Galeria: Instagram_Dreher 1989 & Instagram_Atelier Contextura