A escritora aprendeu a lidar com a tetraplegia após um acidente. Aqui, ela aponta lugares preparados para receber pessoas com deficiência
Todos os lugares dessa seleção para você conhecer melhor por aqui
Importante lembrar que a acessibilidade também vale para idosos e pessoas com dificuldades de locomoção
Depois de encarar algumas dificuldades para acessar com a cadeira de rodas a padaria que sempre gostou de frequentar perto de sua casa, no bairro Assunção, a escritora Sabrina Ferri, 43 anos, teve uma feliz surpresa: um dia, ao chegar à porta do local, percebeu que havia uma rampa a esperando. “É claro que a rampa beneficia a todos, mas sei que minha presença ajudou a despertar os proprietários para a necessidade de dar acesso às pessoas que usam cadeira de rodas”, afirma Sabrina.
Depois da instalação da rampa, ficou muito mais fácil frequentar a Padaria Bassani, tradicional ponto da Zona Sul de Porto Alegre, na movimentada Avenida Wenceslau Escobar. Além de buscar pão e conveniências, tornou-se mais simples parar ali para um café ou um lanche.
É para que cada vez mais locais se tornem acessíveis às pessoas com deficiência que Sabrina faz questão de falar do assunto sempre que surge a oportunidade. “Quanto menos a cidade está preparada para as pessoas com deficiência, menos vamos vê-las nas ruas, ocupando os espaços públicos. Não que essas pessoas não existam. Em função da falta de estrutura, elas acabam não circulando e limitando seu círculo e suas atividades sociais”, explica Sabrina.
Dados na Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, revelam que 8,4% da população brasileira acima de dois anos possui algum tipo de deficiência. Eram 17,3 milhões de pessoas em 2019, data em que as informações foram recolhidas. Desse total, quase metade é de idosos com algum tipo de incapacidade. Essa gente toda nem sempre aparece nos espaços públicos e urbanos por múltiplos fatores, sendo a falta de acolhida dos municípios um dos principais. “A necessidade das pessoas com deficiência nunca é considerada no cotidiano das cidades. Basta observar o caso das calçadas. Na maior parte dos casos, é responsabilidade do dono do imóvel que faz a calçada como quiser. Como garantir acessibilidade assim?”, questiona Sabrina.
Também para trazer o assunto ao debate, além de arrecadar fundos para a pesquisa sobre as lesões medulares, Sabrina participa da corrida Wings for Life Run, iniciativa global que reúne pessoas com deficiência física para uma corrida. Não existe disputa, não há primeiro lugar, sequer os participantes competem entre si. O espírito da coisa é diferente em todos os aspectos, já que o objetivo é deixar o discurso capacitista de lado para valorizar cada indivíduo em sua particularidade, chamando a atenção para a necessidade de aprofundar o estudo sobre as consequências e possíveis tratamentos para as lesões medulares.
Até antes da pandemia, a corrida ocorria fisicamente em variadas cidades do mundo – e Sabrina sempre dava um jeito de participar. Quando chegou a Covid-19, o evento passou a ser realizado on-line e, até agora, ainda não foram realizados novos eventos presenciais no Brasil. Assim que houver, Sabrina está a postos. “Só não vou correr onde for muito frio”.

Na convivência com a tetraplegia, Sabrina Ferri encontrou meios de ter uma vida social ativa. E transformou essa atividade em um instrumento para chamar a atenção da sociedade para a necessidade de tornar os espaços públicos mais acessíveis. “Muitas vezes, quando chego aos lugares e as pessoas se deparam comigo na cadeira, nem preciso falar nada, nem pedir. Elas mesmo se dão conta de que não têm rampa ou que algum outro ponto dificulta o acesso de pessoas com deficiência. É um convite para que pensem”, afirma.
Felizmente, nem tudo em Porto Alegre é obstáculo. Assim como a padaria favorita de Sabrina, outros locais também já se atentaram para a necessidade de tornar os espaços amigáveis para todos os frequentadores – o que inclui não apenas aqueles com deficiência, mas também os idosos, muitas vezes alijados por riscos e dificuldades do percurso. Um dos que Sabrina destaca é o Shopping Paseo, no bairro Tristeza, Zona Sul de Porto Alegre. Ali, segundo ela, tudo é acessível, desde as lojas, todas térreas e com piso nivelado, até o estacionamento no subsolo, servido por um elevador.
Outro local comercial destacado por ela é a Galeria Casa Prado, no Bairro Moinhos de Vento, em que elevadores conduzem às lojas e aos demais espaços com conforto e segurança, inclusive a um bom restaurante. “Porém, as calçadas do Moinhos não são boas. Pessoas com cadeiras de rodas, muletas ou idosos precisam tomar cuidado”, alerta.
Apaixonada por shows, Sabrina é frequentadora assídua do Auditório Araújo Viana que, segundo ela, ficou acessível e confortável depois da reforma. Uma ressalva, no entanto: o acesso ao local ainda não está facilitado para as pessoas com deficiência que precisam descer para aguardar um carro de aplicativo ou estacionar perto da entrada. Um ponto seguro e próximo de parada evitaria o longo deslocamento até a entrada do auditório e os riscos de atravessar uma avenida movimentada como a Osvaldo Aranha.
Além dos locais que Sabrina costuma frequentar justamente pela acessibilidade que oferecem, outros vão surgindo, trazendo satisfação e esperança. Um exemplo são as praças e áreas de orla perto de sua casa, no bairro Assunção. Antes abandonadas, começam aos poucos a ganhar mais atenção, com reformas importantes, como instalação de piso tátil e calçadas de concreto seguras para cadeirantes. “A sociedade tem de pensar em conjunto para compreender e atender às necessidades de todos. Um paisagismo é lindo, mas todos precisam entender que não é suficiente para que todo mundo possa desfrutar o local”, salienta.
Sabrina Ferri tinha 28 anos, praticava esportes, já era formada em Educação Física e vivia uma rotina intensa profissional quando sofreu um acidente que mudou tudo. Ela caiu de um balanço que havia na frente da sua casa de veraneio, na Praia do Rosa, em Santa Catarina. Não teve nenhum arranhão, mas uma dor na cervical já indicava a lesão na medula que a deixaria sem os movimentos do ombro para baixo.
Foi preciso reaprender a viver depois de um trabalho intenso de fisioterapia e reabilitação. O luto deu lugar à personalidade prática e objetiva de Sabrina, que desejava ter a maior independência possível dentro de sua condição. Com três cuidadoras, ela encontrou a autonomia possível para levar a vida com satisfação.
Há algum tempo vem redescobrindo talentos e reorganizando a vida, mais uma vez. Fechou a empresa que administrava e agora se dedica ao estudo e à produção literária. Seu primeiro romance está em fase de escrita, que ela executa por meio de um programa de ditado no Word. Ela também escreve regularmente textos para revistas. “É um exercício de reaprender constante. Mas estou descobrindo um grande prazer em escrever”, completa.

Créditos de imagem - Destaque: Instagram_Sabrina Ferri | Retrato e feed: Arquivo Pessoal