Lugares que você pode frequentar para valorizar e apoiar empreendimentos e a história de pessoas negras
Todos os lugares dessa seleção para você conhecer melhor por aqui
Rejane indica pontos de história e gastronomia que são importantes referências de resistência na cidade
A porto-alegrense Rejane Martins já morou em Curaçao, na Holanda e na França. Em cada lugar, ficou pelo menos um ano. Já na cidade natal viveu mais de 20 anos no Bom Fim e atualmente seu endereço fica no bairro Petrópolis. “Eu gosto muito dessa cidade, me sinto bem no Bom Fim, me sinto bem no Moinhos, mas também quero me sentir bem no Bom Jesus, na Restinga, na Cruzeiro, porque eu não conheço esses lugares, não vivencio esses lugares”, explica Rejane. “São regiões com produção cultural específica, forte e desconhecida”, completa.

O desejo de ampliar o conhecimento sobre uma Porto Alegre mais periférica nasceu da percepção sobre si mesma. “Sou uma mulher negra que sempre trabalhou em determinado nível de elite em relação à maioria da população negra. Nunca percebi quão branca eu estava sendo”, conta.
Empreendedora, Rejane produz há 17 anos o Mesa de Cinema, projeto itinerante que exibe filmes sobre gastronomia com almoços ou jantares em que chefs reinterpretam pratos exibidos na tela. Também é especializada em jornalismo gastronômico: já assessorou ou prestou consultoria para restaurantes, bares e hotéis, possibilitando que sua trajetória profissional fosse construída em um meio privilegiado. “Sempre trabalhei com uma elite cultural e uma elite socioeconômica que acabam ficando dentro de uma sociedade mais branca”, define.
Tudo mudou quando Rejane assumiu a comunicação e a direção de eventos da Odabá – Associação de Afroempreendedorismo. “Dentro desse trabalho, comecei a me descobrir como mulher negra. Antes, eu não me via assim. Estou fazendo um movimento para atuar mais junto ao povo negro e, por isso, tenho me voltado mais para a periferia, onde está a maioria dessa população”.
Nesse seu novo momento, Rejane descobriu o Boteco Dona Ilaídes, comandado por Onília Araújo, presidente da Odabá, que fica em Viamão, Região Metropolitana de Porto Alegre, e é referência da cultura negra.
Segundo dados de autodeclaração de 2017 do Plano Municipal de Porto Alegre, pouco mais de 20% da população da cidade era então formada por pessoas negras. Para muito além dessa porcentagem, a presença da população e da cultura negras na capital gaúcha é central e decisiva sob todos os aspectos.
Para Rejane, já está mais do que na hora dessa potência ganhar a visibilidade e o lugar que merece: “É uma luta contínua pelo empoderamento do povo negro por meio do crescimento econômico”.
No Centro Histórico de Porto Alegre, a paixão pela gastronomia e o cultivo da negritude fazem com que Rejane seja fã do Mercado Público. No centro do edifício inaugurado em 1869, encontra-se um marco que sintetiza a importância da presença negra no local: o Bará do Mercado.

Para as religiões de matriz africana, o Bará é o orixá que tem o poder de abrir caminhos, assentado em algum lugar depois de ser fixado por meio de rituais em algum objeto – pedra, pedaço de madeira ou metal, até mesmo um punhado de terra. Justamente na encruzilhada entre os quatro corredores do Mercado Público estaria enterrado o Bará, sob um mosaico de pedras e bronze tombado como patrimônio histórico-cultural de Porto Alegre.
Rejane destaca o orgulho afrodescendente também no segundo andar do Mercado Público, reinaugurado em julho de 2022, nove anos depois do incêndio que destruiu cerca de 60% do piso superior do edifício. “Das mais de uma centena de concessões, o Beijo Frio é o único comércio de uma empreendedora negra”, conta a jornalista a respeito do estabelecimento de Iara Fátima Rufino, que perdeu tudo no incêndio de julho de 2013, mas que se reergueu e reinaugurou o espaço em 2022, apesar da pandemia.
“O negócio sobreviveu durante esse período com a sorveteria fechada fazendo entregas de comidas a preços muito baixos. Só conseguiram reabrir a casa pela ação da Associação de Mulheres Solidárias da Zona Norte, um coletivo de mulheres negras. É um exemplo mais do que de sobrevivência, de resiliência”, destaca Rejane.
Crédito de imagens - Destaque e feed: Letícia Remião | Retrato: arquivo pessoal