Roteiro do Carnaval por Thiago Pirajira

O artista seleciona espaços da cidade onde o espírito carnavalesco reina o ano inteiro


Locais para você conhecer

Todos os lugares dessa seleção para você conhecer melhor por aqui

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Local

Boteco do Paulista

Rua Riachuelo, 230 - Centro Histórico
Porto Alegre

Local

Afro-Sul Odomodê

Av. Ipiranga, 3.850 - Jardim Botânico
Porto Alegre

Local

Banda Saldanha

Avenida Padre Cacique, 1.355 - Praia de Belas
Porto Alegre

“Eu me sinto muito em casa nas quadras das escolas de samba, nos terreiros."

Afro-Sul Odomodê e Realeza do Partenon não têm quadra, mas usam as ruas da comunidade para ensaiar

Publicado em 08 de maio de 2023
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Cultura
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Mesmo quem conhece Thiago Pirajira apenas por sua participação no Bloco da Laje sabe que o ator, diretor, produtor, professor e curador, mestre em educação e doutorando em artes cênicas vive o Carnaval 365 dias por ano.

O envolvimento do pesquisador e criador vai da quadra da escola de samba à academia, e começou muito cedo em sua trajetória. “Sou um artista do corpo, das artes cênicas. Comecei a fazer teatro no início dos anos 2000, por meio do projeto de Descentralização da Cultura, realizado durante os anos 1990 e início dos 2000 em Porto Alegre. E eu comecei por conta dessas oficinas que aconteciam na Vila Primeiro de Maio, perto do bairro Glória. Vale destacar que minha família é muito presente na cultura do Carnaval da cidade e isso é importante de falar, pois está comigo quando me intersecciono como artista”, revela.

Formado em teatro pela UFRGS, em 2011 criou, ao lado de outros colegas de teatro e música, o Bloco da Laje, coletivo teatral carnavalesco que em sua mais recente saída, em fevereiro de 2023, reuniu mais de 30 mil pessoas na Orla. Em 2014, fundou com alunos do Departamento de Arte Dramática da universidade o grupo Pretagô, que pesquisa representação, representatividade e presença de pessoas negras nas artes.

Deslocando-se pelos territórios da cidade

Pirajira integra também o grupo Usina do Trabalho do Ator, e desde 2005 desenvolve interfaces entre teatro, dança, Carnaval e práticas urbanas. Tudo isso se junta às questões ligadas à universidade, onde fez mestrado e atualmente é doutorando e professor substituto na graduação. “Minha vida é uma encruzilhada de diversas experiências e práticas que constituem essa minha forma de realizar arte, que não está isolada e, sim, dialoga com diversas possibilidades”, afirma.

O multiartista nasceu no bairro Santo Antônio, na divisa com a Vila Maria da Conceição, onde viveu até quase o final da adolescência. Também passou pelos bairros Cavalhada, Azenha e Santana, para em 2010 se instalar no Centro Histórico. Seu dia a dia obriga-o a circular bastante por conta das diversas práticas que desenvolve: “São muitos territórios que frequento, vou da Zona Norte à Zona Sul”.

A cultura afro-brasileira em Porto Alegre

Pirajira confessa que tem uma relação de amor e ódio com a cidade. “Amo porque eu gosto da dimensão de Porto Alegre e das diferentes energias e atmosferas de cada região. Mas me incomodam questões limitadas de articulações culturais bastante estéreis que ainda se constroem na cidade", diz. Segundo ele, isso não quer dizer que os artistas não produzam. "Eles produzem e muito! Mas muitos trabalham no nível da precariedade e da escassez, e articulam estratégias de criação e de sobrevivência que são incríveis, mesmo com todos os desafios", explica. "Nessa relação de amor e de indignação, eu vou construindo um pouco esse meu deslocar pela cidade, que também está ligado com as pessoas com quem me relaciono, com quem eu trabalho, que estão no centro e nas periferias.”

Pirajira diz que se sente em casa quando pisa em alguma das quadras das escolas de samba. “Bambas da Orgia, Imperadores do Samba, Estado Maior da Restinga e União da Vila do IAPI são territórios que muitas vezes são invisibilizados, mas que estão produzindo, realizando e se mantendo desde muito tempo.” O Parque da Redenção, ponto de encontro dos ensaios do Bloco da Laje aos domingos, e a Orla também são locais de conexão. “Moro em frente à Orla. Ela me tranquiliza muito. Também me sinto muito em casa nas quadras das escolas de samba, nos terreiros... Porto Alegre é uma das cidades do Sul que mais possuem espaços do sagrado afro-brasileiro”, informa. 

Carnaval o ano todo

Entre os locais onde o Carnaval está vivo o ano todo, o artista e pesquisador destaca alguns. “A Banda da Saldanha, no Menino Deus, que há 40 anos existe produzindo cultura, oferecendo arte para cidade e trazendo grandes shows do universo do samba, é um espaço superacessível e democrático”, assim como a quadra da Bambas da Orgia, na Voluntários da Pátria, sua escola do coração.

Entre os bares, estão o Bar da Carla na Cidade Baixa, “lugar de resistência negra e do samba”, e o Boteco do Paulista, no Centro Histórico. “Tenho uma relação muito íntima desde seu ressurgimento depois das obras na Orla. Por conta das reformas, muitos empreendimentos da região fecharam, e nós, do Pretagô, fomos parceiros do Gelson, proprietário, promovemos atividades artísticas e trouxemos novos públicos para aquele espaço que hoje já é referência de circuito de bares da cena do samba em Porto Alegre”, conta.

Trazendo história e renovação, Pirajira também destaca o Afro-Sul Odomodê, espaço de resistência da cultura negra há 50 anos, e a escola Realeza do Partenon. “Eles não têm quadra, mas usam as ruas da comunidade como local dos ensaios. Nada mais demarcador do território. Acho isso lindo.”

Créditos de imagem - Destaque: Instagram_Bloco da Laje | Retrato e feed: Arquivo Pessoal