A premiada designer, adepta de um modo de vida natural e minimalista, indica onde gosta de fazer suas compras na região onde mora
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Desde a infância, quando morava no retirado bairro de Teresópolis, a designer Heloisa Crocco já tinha conexão com uma filosofia de vida mais natural. Mas foi na Zona Sul de Porto Alegre, em Vila Conceição, que ela encontrou, há quarenta anos, seu lugar no mundo. E foi ali, às margens das águas do Guaíba, que ela construiu sua casa-ateliê, em uma região que mais parece um bosque. “Pela manhã, ouço um Aracuã na minha varanda, sabe? É isso que nutre a gente. Então, eu tenho um pouco de resistência de ir pro centro, pra cidade, como a gente chama aqui, de ir lá pro movimento”, explica.
Heloisa, de origem italiana, sempre foi fascinada pelos vizinhos. “Gente interessantíssima da imigração alemã”, conta. Na época havia chácaras – hoje transformadas em condomínios – e as pessoas tinham um estilo de vida que a designer cultiva. “Eles cuidavam do pomar e da horta, as casas tinham as portas abertas e a cultura da boa vizinhança”, lembra. Esse espírito se mantém e realmente impressiona ver que o bairro não tem guaritas. “Aqui, tu não estás preso à tua questão, tu estás virado pra rua praticamente”, diz.
A cultura de receber os amigos está viva na casa-ateliê de Heloisa. Por isso, a cozinha-contêiner do seu filho Vico, que é chef, foi incorporada ao projeto original. A moradia encanta por sua simplicidade elegante e, assim, consegue ser incrível sem ser pretensiosa. Ela foi construída de pinus reflorestado e lembra a arquitetura nórdica. A escolha do material sustentável tem a ver com a intimidade da designer com o pinus, muito presente em seu trabalho e no qual se aprofundou ao longo dos anos, com projetos de bancadas e ferramentas.
Foi numa dessas encruzilhadas da vida, em dúvida sobre os rumos do trabalho, que Heloisa descobriu seu interesse por uma vida mais natural e sem acúmulos. A experiência aconteceu numa viagem à Amazônia com Zanine Caldas, reconhecido artesão da madeira. Ali, enquanto coletavam cascas, sementes e cipós, encantou-se com os ensinamentos da floresta e iniciou sua pesquisa em madeira a partir das ricas texturas e cores dos anéis de crescimento das árvores.
Dizem que nos anéis estão a alma da espécie, pois eles revelam a idade da árvore – e realmente, no tronco cortado do pinus, percebemos seus veios bem marcados. No trabalho de Heloisa Crocco, essa ideia matricial, que carrega um pensamento sustentável, se amplificou a partir de sua matéria-prima ganhando diferentes desdobramentos, como painéis ou carimbos com estudos dos grafismos dos veios das árvores que estampam louça, tecido, papelaria, entre outros produtos. A coleção, fruto dessa pesquisa, foi batizada de Topomorfose e ganhou o Prêmio do Museu da Casa Brasileira, em 1994.
Mulher e mãe de dois filhos, Heloisa queria se libertar do pensamento tradicional de casa. Percebeu, então, que se vivesse apenas com o necessário, seria a conquista da grande liberdade. Mesmo hoje, quando sai de um avião, ela ainda se choca com a quantidade de malas e a ânsia que as pessoas têm no freeshop para comprar as mesmas coisas que todo mundo consegue adquirir em qualquer lugar. Há algum tempo, nesse exercício do menos é mais, Heloisa construiu outra casinha no Uruguai ainda menor que a de Porto Alegre, com 34 metros quadrados, virada para um grande deque.
Interessante ver como alguém que vive da arte da transformação pelo fazer manual se conecta tão naturalmente com a ideia de reaproveitamento. Um de seus vestidos de linho, que comprou em 2000, agora já mudou de cor e está com pequeno furo, mas ela adora a roupa. Por isso, quando vai sair, coloca algo em cima para compor e segue feliz e confortável, sem essa necessidade desenfreada de ter mais e mais.
Heloisa é uma pessoa caseira, mas carrega viva sua Porto Alegre em memórias, como o seu amor eterno pelo Theatro São Pedro. Ela lembra que ia com as crianças pequenas e que Dona Eva Sopher, diretora do espaço, pela qual Heloisa tinha muita admiração, estava sempre na entrada. “Com o ingresso, ela entregava a todos uma bula de uso: não pode comer chiclete, não pode colar o chiclete embaixo da poltrona”, diverte-se.
São muitas histórias vividas na capital gaúcha, mas a realidade é que, no seu dia a dia, Heloisa gosta de ficar nas redondezas de casa, levando uma vida pacata, ora passeando na rua da praia, ora criando em seu ateliê, ora comprando suas coisinhas no Ateliê Vincent, que faz pães e pizzas com grãos orgânicos e fermentação natural. Às vezes, Heloisa vai à feirinha orgânica da Tristeza, na frente da igreja, que acontece aos sábados. “É lá que todo mundo se encontra, ali vendem muitas delicias”, diz. “Mas tem que chegar cedo, assim tu consegues as coisas boas”, aconselha. A Zona Sul realmente tem achados incríveis e a designer nos mostrou um de seus preferidos, o Magian Cacao, fabricante de chocolates artesanais premiado.
Felizes são aqueles que descobrem seu pedaço de cidade e Heloisa é sem dúvida, uma delas.
Créditos de imagem: Letícia Remião